quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Colecionador de Memórias

"De ontem, dona, vem tudo de ontem... - eu disse.
 Como é? - ela parecia confusa, realmente confusa.
 Somos todos restos, sabe? Bom, quantos mais velhos, menos restos seremos. Ou será que seremos mais restos? Bem, só somos inteiros quando nascemos. Depois, vamos perdendo pedaços, deixando partes, virando restos. Tudo depende do ontem. Nossas histórias e memórias. É o que importa. É o que nos forma, sabe? Presente e futuro são só consequências, vão virar passado também. Quer ver? Hmmm... O seu "como é?", não faz nem cinco minutos que disse isso, mas já é passado. Tudo é passado. Tudo vem de ontem. Entendeu, dona? - fiquei oilhando fixo pra ela.
 Claro, claro, menino. Bem, pegue isso, vá comprar um doce. - ela me deu uma nota de dez reais.
 Dinheiro, dona? Dinheiro também passa. Só histórias ficam. bem, pelo menos espero que o que eu te falei fique. Tome, dona, vá comprar uma memória. - lhe devolvi a cédula e saí correndo entre os carros travados e sem lembranças, naquele congestionamento de vidas congestionadas sem memórias."

Só mais uma perdida com um mapa nas mãos.

 "Ao menos uma vez na vida, gostaria de ter a coragem necessária para ser covarde. A coragem para mandar meus problemas pro espaço, abraçar o mundo e fugir de mãos dadas com a felicidade. A coragem de não precisar cumprir todas as obrigações que a sociedade joga na minha cara. A coragem de não precisar encarar de frente todos os problemas, em especial os dos outros. A coragem de me refugiar num lugar bem longe. De correr para onde eu possa ver o pôr-do-sol ao lado da liberdade. De te puxar pela mão e levar para qualquer lugar onde ninguém cobre nada. Caminhar descalça até um cantinho onde ninguém me encontre. A coragem pra ser covarde é muito maior e mais complicada do que a coragem de não se acovardar. Ser covarde não é assim tão ruim. s hippies são covardes, duvido que morram de infarto ou que fiquem carecas por causa do stress. Um dia ainda me acovardo. Um dia fujo pro meu canto, um dia monto meu mundo. Por enquanto, vou sendo corajosa e vendo aonde essa coragem problemática pode me levar."

O dia em que Júpiter encontrou Saturno.

"Foi apenas uma troca de imagens, dois flashes, meio bater de coração.Um daqueles instantes básicos, porém necessários. Um tanto quanto essenciais. Um instante de ligação mental entre dois abismos.
Você olhou para ela. Ela olhou pra você. Meio segundo, o bastante para vê-la corar ao baixar a cabeça depressa. Sentiu esse sorriso brotando no seu rosto?
Os olhos dela voltaram ao livro que lia ende seus olhares se baterem. A capa dura de couro, escura, aparência pesada.
Talvez cinco, dez minutos tenham se passado. Ela fechou o livro e se levantou. Morangos Mofados, Abreu. Então era isso qe ela tanto escrevia no pequeno bloco de notas. Caminhou até o balcão da bibliotecária e parou, conversando.
Você bem que se esforçou, mas o tom das duas era baixo demais para que se ouvisse o nome dela.
Ela... Ela que saiu pela porta sem levar o livro.
Seu primeiro impulso foi o de correr porta afora e encontrar uma desculpa para falar com ela, mas se conteve.
Talvez cinco, dez minutos tenham se passado. Você fechou o livro e se levantou. Antologia poética, Drummond. Caminhou até o balcão da bibliotecária. Ela lhe entregou um bilhete. Uma folhinha de bloco de notas.
Saiu com o bilhete em mãos e o livro debaixo de braço. Parou na porta da biblioteca e acendeu um cigarro. Tragou-o. Abriu o bilhete.

"-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
 -Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
>> não sei bem por quê pedi que te entregassem isso, mas pedi. Talvez seja essa magia da troca de olhares repentina. Espero vê-lo outra vez. Marissa."
Sentiu este sorriso bobo ao ponto de parecer insano brotando em seus lábios, meu chapa?
Pegou um guardanapo da padaria ao lado da biblioteca e rabiscou no meio dele com sua letra um tanto quanto afetada pela alegria repentina:
"-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
 -O  tempo não existe.
>>espero que nosso reencontro não nos faça esperar por 20 anos, Marissa. Estou numa necessidade imensa de vê-la. Gostaria de ter tido a coragem. Pedro."
Voltou e deixou o bilhete com a bibliotecária.

Melancolia V

"Eu estava num daqueles dias que são terríveis e ótimos ao mesmo tempo. O mundo parecia querer me engolir e me abraçar no mesmo movimento. Respirei fundo. Eu não tinha razão para ter medo. Era um dia como qualquer outro certo? Errado. Erradíssimo. Em geral eu acordo mega disposta. Mas hoje não. Ah, foi um custo sair da cama. Me senti uma doente. Era como se eu tivesse ficado por semanas e semanas deitada naquela cama. Como se eu tivesse entrado em coma. Fui até o banheiro. Parei embaixo da ducha e abri o registro. A água caiu fria no meu corpo, ainda com as roupas de dormir. Segundos depois, a temperatura estaria agradável. Escovei os dentes com o ânimo de quem é forçado a trocar os amigos pelo dever de casa. Me sequei e fui para o quarto, enrolada na toalha. Vesti uma camiseta que mais parecia um vestido e me joguei na cama, os cabelos ainda úmidos. A luz do Sol bateu morna no meu rosto. Era bom. Ah, ainda existiam coisas boas no mundo. Mas ainda assim, meu dia seria triste. Tão ruim cortar ligações tão longas. Ah, não, que é isso? Loucura? O clube de teatro só se desfaria na semana seguinte. Óh céus, em que mundo fui parar? Hoje era só um dia normal. Só mais um dia de deixar o estômago embrulhado. Sim, só mais um dia..."

Sober

"Eu precisava de uma boa desculpa pra sair daquela festa. A música era horrível e não havia sequer uma bebida que pudesse me deixar de porre. Mas era a festa de uma velha amiga, ela iria ficar magoada se eu fosse embora.
Então eu precisava de um bom motivo pra ficar lá. Minha música preferida, um doce bem feito ou uma garrafa de whisky decente. Tanto faz. Mas era difícil encontrar algo bom ali.
Eu precisava de ar. Ar puro.
Subi as escadas e fui pra sacada de um dos quartos. O vento frio da noite bateu confortável contra minha pele.
Mas eu não estava só. Tinha um cara na sacada do outro quarto. Alto e muito branco, o terno escuro caía muito bem contra sua pele. Sua gravata estava lpresa com um nó nas grades da sacada.Os óculos de armação reta, discretos, o faziam parecer ainda mais sóbrio, sério.
Encarei meus pés. Eu era oposta àquele cara. Estava usando o mesmo par de tênis sem cadarço que usei na formatura do ensino médio. Um vestidoxadrez meio curto que eu com certeza não compraria, mas decidi tirar do embruhlo de presente e vestir.
Ele tinha aquele porte de excutivo bem sucedido, enquanto eu, bem, digamos que até minha estatura contribuía para que eu ainda parecesse uma caloura de colegial.
Pensei em entrar e me jogar na cama. Estou passando mal, Mari, você não se importa se eu ficar um tempo aqui, não é? Mas não pude. Os olhos dele prenderam os meus.
Olhos castanhos? Sim, deviam ser castanhos.  Mas também poderiam ser verdes. Mas estava bem assim. Olhos escuros contrastando com a pele clara que contrastava com o terno que contrasatava com a camisa que contrastava com a noite.
Ficamos um bom tempo assim, apenas nos encarando. Talvez ele também estivesse me fazendo perguntas mentais. Por três vezes, meus lábios se abriram. Mas nenhum som saiu.
Ouvi meu nome e meu pescoço virou-se instintivamente para dentro da casa. Que diabos. Ouvi a porta da outra sacada bater. Quando votei o olhar, ele já não estava lá.
Suspirei. Voltei para baixo.
Desci a tempo de ver alguém pegar um chapéu do cabideiro na entrada e colocá-lo na cabeça antes de sair pela porta. Alguém alto, usando um terno muito escuro.
Mas ninguém saberia quem era ele. Sequer saberiam quem eu era."

Reborn

"Devia ser meia-noite. Ou mais. Ou menos. Já não importa. Eu estava com meus fones, o que quer dizer que o tempo havia desaparecido. Sei que devia estar já há algumas horas sentada no meu telhado. Estava chovendo também. Lembro-me das gotas d'água escorrendo por meus braços e por meu rosto. Deitei-me. Senti os gravetos e folhas no meu cabelo. Senti esses mesmos gravetos e folhas arranharem meus braços e meu rosto enquanto eu, de alguma forma, caía. Mas era como se ainda estivesse no lugar. Senti um baque, minhas costas, o chão. A chuva ainda caía sobre mim, ainda podia sentir algumas coisas. O quê havia acontecido? Ainda podia ouvir, bem longe e baixo, o som dos meus fones... Ainda ouvia um sussurro que dizia para um filho desobediente seguir em frente por que haveria paz ao final de tudo... Tentei respirar fundo, mas o ar saiu arfante. Tentei me virar, ficar de lado, impossível. Minhas costas doíam como o inferno. Oh céus... Seria esse o fim de uma vida? Talvez não, talvez apenas o início de outra... Fechei os olhos, tentei não pensar em nada, a música seguia ao fundo... "Carry on, you'll always remember..." Eu não me lembraria.. Já via memórias sendo apagadas. Corria atrás das memórias que fugiam. Três minutos de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Eu era Jim Carrey então? Ouvi minha mãe gritar e correr e abaixar-se ao meu lado e tomar-me nos braços. Minhas costas, minha coluna... Um último grito de dor e um sorriso leve. Gostaria que ela pudesse me ouvir pensar... "Mãe, não sofra, não chore. Siga em frente, é só o que lhe peço." Um último olhar para o céu e a escuridão. E então uma luz. Branca, forte, me cegou a princípio. Pude ouvir vozes. "It's a girl, it's a girl", ouvi um homem dizer, num sotaque britânico fortíssimo. Aquele choro de criança... Ah, sim. A morte que não era um fim."

Melancolia IV

"Então que tal essa? Vâmo passar o ano novo juntinhos, ver a queima de fogos de um canto da cidade. Quem sabe estourar uma champagne sem a necessidade de bebê-la. Vamos desejar à meia-noite que essa madurgada se estenda por mais algumas horas. Vamos nos beijar enquanto as pessoas passam na rua aos gritos festejando a virada. Vamos nos fazer explícitos, meu amor. Vamos comemorar como idiotas, como se o mundo acabasse agora."
 - Alguém.