"De ontem, dona, vem tudo de ontem... - eu disse.
Como é? - ela parecia confusa, realmente confusa.
Somos todos restos, sabe? Bom, quantos mais velhos, menos restos
seremos. Ou será que seremos mais restos? Bem, só somos inteiros quando
nascemos. Depois, vamos perdendo pedaços, deixando partes, virando
restos. Tudo depende do ontem. Nossas histórias e memórias. É o que
importa. É o que nos forma, sabe? Presente e futuro são só
consequências, vão virar passado também. Quer ver? Hmmm... O seu "como
é?", não faz nem cinco minutos que disse isso, mas já é passado. Tudo é
passado. Tudo vem de ontem. Entendeu, dona? - fiquei oilhando fixo pra
ela.
Claro, claro, menino. Bem, pegue isso, vá comprar um doce. - ela me deu uma nota de dez reais.
Dinheiro, dona? Dinheiro também passa. Só histórias ficam. bem, pelo
menos espero que o que eu te falei fique. Tome, dona, vá comprar uma
memória. - lhe devolvi a cédula e saí correndo entre os carros travados e
sem lembranças, naquele congestionamento de vidas congestionadas sem
memórias."
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